Padre Joacir d’Abadia e seu pai Domingos Soares d’Abadia reunidos em foto de família – Muito pasto e poucos rastros.

Muito pasto e poucos rastros: As 3 lições de sabedoria do Senhor Domingos que o tempo não apaga

Por Padre Joacir d’Abadia

A expressão “Muito pasto e poucos rastros” resume bem as memórias que guardamos. Depois de uma longa conversa com minhas irmãs, começamos a recordar algumas expressões que nosso pai costumava repetir. Eram frases simples, ditas no cotidiano, mas carregadas de sabedoria.

Sem frequentar grandes escolas ou escrever tratados sobre educação, ele exercia uma verdadeira catequese familiar. Ensinava-nos a viver no amor, a respeitar o próximo, a não desejar aquilo que pertence aos outros e a valorizar honestamente aquilo que conquistamos com o próprio esforço.

Nosso querido pai, Domingos Soares d’Abadia, possuía um modo muito próprio de transmitir valores. Entre seus muitos ensinamentos, algumas frases permanecem vivas em nossa memória. Ele costumava dizer:

“Meus filhos, no fim dos tempos vocês verão: muito pasto e poucos rastros; muita cabeça e poucos chapéus; muita conversa e pouca confiança.”

Na infância, essas palavras pareciam apenas curiosidades de um homem experiente. Hoje, porém, ao observarmos a sociedade em que vivemos, percebemos a profundidade contida nesses dizeres.

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Aquilo que ele chamava de “fim dos tempos” não precisava ser entendido como o encerramento da história humana, mas como um período marcado pela inversão de valores e pelo enfraquecimento das virtudes que sustentam a convivência entre as pessoas.

Muito pasto e poucos rastros

Quando dizia “muito pasto e poucos rastros”, ele apontava para uma realidade de abundância sem presença, de recursos sem propósito.

Há cada vez mais bens, mais propriedades, mais possibilidades, mas nem sempre encontramos pessoas dispostas a percorrer os caminhos que exigem trabalho, dedicação e responsabilidade. Existe o pasto, mas faltam os rastros de quem constrói, cuida e permanece.

Muita cabeça e poucos chapéus

Ao afirmar “muita cabeça e poucos chapéus”, falava de algo ainda mais profundo. Não se referia simplesmente à quantidade de homens, mas à escassez daqueles que honram a própria palavra.

O chapéu, símbolo de respeito e honra para as gerações antigas, representava o caráter. Hoje encontramos muitas pessoas, muitos discursos, muitas promessas, mas poucos compromissos assumidos com firmeza.

A palavra dada já não possui o mesmo peso de outrora. Em muitos casos, nem mesmo contratos e documentos conseguem garantir aquilo que antes era sustentado apenas pela honestidade.

Muita conversa e pouca confiança

E quando dizia “muita conversa e pouca confiança”, parecia enxergar um tempo semelhante ao nosso. Nunca se falou tanto.

Nunca houve tantos meios de comunicação, tantas opiniões, tantos ensinamentos e tantos especialistas para os mais variados assuntos. As palavras circulam com velocidade impressionante. Todos falam. Todos explicam. Todos orientam.

No entanto, cresce a dificuldade de confiar. A abundância de discursos nem sempre produz sabedoria; muitas vezes produz apenas ruído.

O resgate dos valores fundamentais

Vivemos numa época em que a informação se multiplica a cada instante, mas os valores fundamentais parecem perder espaço.

A gratidão, o respeito, a fidelidade, o compromisso com a família, a simplicidade de um “bom-dia” sincero ou de um “obrigado” dito com o coração tornam-se cada vez mais raros. São gestos pequenos, quase invisíveis, mas que sustentam a grandeza da vida humana.

A verdadeira sabedoria está justamente nisso: perceber que os valores que realmente transformam o mundo não são os mais complexos, mas os mais simples. São aqueles ensinamentos que recebemos dentro de casa, ao redor da mesa, no convívio com aqueles que nos amaram.

Meu pai não deixou livros escritos, mas deixou algo ainda mais precioso: palavras que continuam iluminando a realidade e ajudando seus filhos a compreenderem o mundo. Quanto mais o tempo passa, mais percebemos que aqueles antigos dizeres não eram apenas frases de um homem simples. Eram lições de vida. E, como toda verdadeira sabedoria, continuam atuais.

Padre Joacir d’Abadia é filósofo-poeta e autor de 25 livros. Seu mais recente lançamento, “A Senha da Vida”, já está disponível para leitura.

Segue lá no Instagram: @padrejoacirdabadia

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